• Leura Dalla Riva

A ECOLOGIA DE MARX

O post de hoje é um breve comentário sobre o livro "A Ecologia de Marx" de John Bellamy Foster, uma das obras centrais em nossa bibliografia.

Além desse livro maravilhoso, você também pode conferir o artigo "A ecologia da economia política marxista" do próprio Foster ou ainda outros artigos sensacionais como "Marx, produtivista ou precursor da ecologia? A sempre renovada questão" da querida Professora Dra. Maria Beatriz Oliveira da Silva.


Primeiramente, essa obra de Foster mostra como são ultrapassadas as concepções de que Marx não teria preocupações ecológicas, que teria adotado uma visão “prometeica” ou produtivista de pouco interesse pelas questões da ciência ou pelos efeitos da tecnologia sobre o meio ambiente, ou que era "especiesista", diferenciando radicalmente os seres humanos dos animais e tomando o partido daqueles em detrimento destes, dentre outros argumentos que procuram afastar o pensamento Marxiano da ecologia.


Além disso, não se pode confundir o produtivismo ou os erros soviéticos com o pensamento marxiano, pois, nas palavras do Professor Dr. Alysson L. Mascaro, “a União Soviética, ao invés de um sólido Estado socialista – cuja existência estável é virtualmente uma impossibilidade – foi apenas uma variante do capitalismo de Estado” (MASCARO, 2015, p. 25). Nesse mesmo sentido, Foster defende que a crítica ecológica de Marx e Engels “era razoavelmente bem conhecida (embora os seus fundamentos filosóficos fossem mais obscuros) e teve impacto direto sobre o marxismo nas décadas imediatamente subsequentes à sua morte", tendo sido descartada posteriormente, sobretudo dentro da União Soviética durante o controle de Stalin, "quando a expansão da produção pela produção se tornou a meta suprema da sociedade soviética” (FOSTER, 2005, p. 324).


A visão ecológica de Marx, portanto, além de materialista, é dialética, pois:


Ao contrário de uma visão do mundo natural vitalista, espiritualista, que tende a ver o mundo em conformidade com algum propósito teleológico, um materialista vê a evolução como um processo aberto de história natural, governado pela contingência, mas aberto à explicação racional [...] Uma abordagem dialética nos força a reconhecer que os organismos em geral não se adaptam simplesmente ao seu meio ambiente, mas afetam o meio ambiente de várias maneiras e, afetando-o, modifica. A relação é, pois, recíproca (FOSTER, 2005, p. 31-32).


Foster demonstra em sua obra como Marx desenvolveu a categoria de falha ou ruptura metabólica (Metabolic Rift!) a partir da teoria da evolução de Charles Darwin e de uma crítica ao malthusianismo, bem como a partir de estudos como o realizado pelo químico Justus Von Liebig sobre o esgotamento do solo pela agricultura.


Marx, segundo Foster (2005), sempre tratou a natureza como uma extensão do corpo humano, isto é, como “corpo inorgânico” do homem, pois a relação que é claramente orgânica transcende fisicamente, estendendo, na prática, os próprios órgãos dos seres humanos, que produzem a relação histórica com a natureza em grande parte produzindo os seus meios de subsistência (DALLA RIVA, 2020).


Nesse sentido:


Para Marx, a natureza e o homem possuiriam um metabolismo único, esta seria o corpo inorgânico desse, e, com a alienação do próprio ser no capitalismo, ocorreria um distanciamento visceral entre ambos, estabelecendo a denominada “fratura metabólica”. Marx e Engels, enquanto primeiros a aplicarem o conceito de metabolismo à sociedade, associaram o referido termo à relação cidade-campo, grande indústria-grande agricultura, homem natureza, e a “falha” estaria na insustentabilidade destes relacionamentos dentro do capitalismo (FREITAS; NÉLSIS; NUNES apud ROSA, 2018, p. 37)


A categoria fratura, falha ou ruptura metabólica criada por Marx, e desenvolvida por Foster, denuncia, portanto, como o modo de produção capitalista, a partir da Revolução Industrial, aprofundou a separação entre homem e natureza a ponto de interromper o equilíbrio metabólico existente na relação entre ambos.


Saiba mais sobre esse tema através dos seguintes textos:


COSTA NETO, Canrobert Penn Lopes. De Marx à agroecologia: a transição sociotécnica na reforma agrária brasileira. São Paulo: Cia do eBook, 2018.


DALLA RIVA, Leura. De Marx ao MST: capitalismo financeirizado e forma jurídica como entraves à agroecologia. 112f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências Sociais e Humanas, Programa de Pós-Graduação em Direito, 2020.

FOSTER, John Bellamy. A ecologia da economia política marxista. Lutas Sociais, n. 28, jan./jun. 2012. Tradução de Pedro Paulo Bocca. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/ls/article/view/18539/pdf. Acesso em: 30 mar. 2020.


FOSTER, John Bellamy. A Ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.


GUERRA, Clarissa de Souza Guerra. Soberania Alimentar no Brasil: Limites econômicos (geo) políticos e jurídicos nos marcos do capitalismo periférico. 85f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências Sociais e Humanas, Programa de Pós-Graduação em Direito, 2020.


MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro III, Volume 1. São Paulo: Abril Cultural, 1984


MASCARO, Alysson Leandro. A crítica do Estado e do direito: a forma política e a forma jurídica. In: NETTO, José Paulo (org.). Curso livre Marx-Engels: a criação destruidora. São Paulo: Boitempo; Carta Maior, 2015.


ROSA, Vanessa de Castro. De Marx a Altieri: os limites do balizamento jurídico para a produção agroecológica nos marcos do capitalismo. 2019. 250f. Tese (Doutorado Político e Econômico) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2019. Disponível em: http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/4067/5/Vanessa%20de%20Castro%20Rosa.pdf. Acesso em: 07 abr. 2020.


SILVA, Maria Beatriz Oliveira da. Marx, produtivista ou precursor da ecologia? A sempre renovada questão. Rev. Direito Práx. [online]. 2018, vol.9, n.3, p.1735-1752. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2179- set. 89662018000301735&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 07 set. 2020

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