• Kanandra T. Bertoncello

Araras-azuis e o envenenamento por organofosforado

Um estudo publicado recentemente descreveu o caso de três araras-azuis (Anodorhynchus hyacinthinus) encontradas no Pantanal (VICENTE; GUEDES, 2021). Um dos animais estava sem vida, e os outros dois que apresentavam sintomas neurológicos alterados foram a óbito logo em seguida. O fato ocorreu em 2014, porém só agora os dados foram divulgados na revista Scientific Reports, do grupo Nature. Os pesquisadores buscaram encontrar a causa da mortalidade dessas aves, bem como suas implicações para a conservação.


Ocorrências deste tipo são isoladas e raras para as araras-azuis, dessa forma as aves foram coletas pelo Instituto Arara-azul e encaminhadas para necropsia, a fim de investigar as causas. Os resultados dos exames laboratoriais demonstraram uma alta concentração de mevinfos (Fosdrin), um pesticida da classe dos organofosforados. A detecção desse pesticida no fígado das araras é compatível com o diagnóstico de intoxicação, e confirma a morte aguda devido ao envenenamento dessas aves.


Os autores acreditam que esse evento seja incomum, pois nunca encontraram um caso semelhante, além da ausência de evidências do uso regular de Fosdrin na área. Neste sentido, é muito provável que essa aplicação tenha sido pontual e de forma inadequada.


A principal ação da contaminação por organofosforados é a inibição da acetilcolinesterase, uma enzima que tem um importante papel no impulso nervoso. A inibição dessa enzima resulta no acúmulo do neurotransmissor acetilcolina nas sinapses. E por sua vez, esse acúmulo de acetilcolina culmina na disfunção autonômica, movimentos involuntários, diminuição da atividade motora e, finalmente, depressão respiratória podendo resultar em morte (SÁNCHEZ-SANTED; COLOMINA; HERRERO HERNÁNDEZ, 2016). Dessa forma, o uso equivocado de pesticidas pode gerar riscos para os organismos não-alvos, como as araras, o que acarreta em perda populacional devido aos efeitos tóxicos, e consequentemente na desestabilização da comunidade onde vivem estes animais.


O que você precisa saber sobre o Instituto Arara-Azul?


O Instituto Arara Azul faz parte de um programa de conservação de 30 anos no qual estimava-se que existiam aproximadamente 2,500 araras azuis selvagens. Atualmente, como resultado de um programa de conservação bem sucedido no sul do Pantanal brasileiro, a população selvagem é estimada em aproximadamente 6,500 indivíduos. Além disso, o Instituto auxiliou na redução do número de apreensões de araras para o comércio ilegal de vida selvagem, principalmente devido aos programas de conscientização ambiental que se concentram na educação da população local e na expansão de um patrulhamento eficaz.


Referências:


SÁNCHEZ-SANTED, F.; COLOMINA, M. T.; HERRERO HERNÁNDEZ, E. Organophosphate pesticide exposure and neurodegeneration. Cortex, v. 74, p. 417–426, jan. 2016.


VICENTE, E. C.; GUEDES, N. M. R. Organophosphate poisoning of Hyacinth Macaws in the Southern Pantanal, Brazil. Scientific Reports, v. 11, n. 1, p. 5602, dez. 2021.


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