• Clarissa de Souza Guerra

Fome, Soberania Alimentar e Pandemia em dados estatísticos

“Você tem fome de que?” “De alimento”. Esta ainda é a resposta de muitas pessoas em pleno século 21. Vejamos:


Conforme o documento “Panorama de la Seguridad Alimentaria y Nutricional en América Latina y el Caribe” (Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e Caribe), da FAO, divulgado em 2019, evidencia-se que, em 2018, quarto ano consecutivo em que a fome cresce de modo contínuo, 6,5% da população da região vivia com fome, o que equivale a 42,5 milhões de pessoas (FAO; OPS; WFP; UNICEF, 2019, p. 02).


Ainda, dados referentes ao ano de 2019 do Relatório SOFI 2020 revelam que, no mundo todo, em torno de 750 milhões de pessoas estavam subjugadas à insegurança alimentar (que inclui a desnutrição, mas também considera os índices de má alimentação).


Por seu turno, o Relatório SOFI 2019 já mencionava que cerca de 14% dos alimentos em todo o planeta eram perdidos, considerando o percurso da cadeia produtiva até o varejo (FAO, 2019).


O “Food Waste Index Report 2021” (Índice de Desperdício de Alimentos 2021) revelou que, em nível global per capita, ocorre o desperdício de 121 quilos de alimentos a cada ano, dos quais 74 quilos são descartados em residências. No Brasil, esse número cai para 60 quilos de alimentos desperdiçados por pessoa no ambiente doméstico, o que demonstra que o desperdício não se restringe apenas aos países desenvolvidos (UNEP, 2021).


Além disso, o SOFI 2020 aponta que a meta de alcançar a “fome zero” até o ano de 2030 – em alusão a um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável constantes na Agenda 2030 da ONU – não será alcançado, pois “The world is not on track to achieve Zero Hunger by 2030”. Essa perspectiva, porém, ainda não considerava as consequências da pandemia da COVID-19 (FAO, 2020, p. 03).


De modo preliminar, a FAO (2020) observa que o contexto pandêmico pode adicionar entre 83 e 132 milhões de pessoas para o número total de desnutridos no mundo, dependendo dos índices de crescimento econômico e de recuperação.


Importa ressaltar, também, no que tange à prevalência da desnutrição, num quadro comparativo entre os anos 2005 e 2019 (com estimativas para 2030), que a região da América Latina e Caribe, desde 2017, tem curva ascendente para os índices de desnutrição, e prevê o seu agravamento até 2030, em direção contrária à proposta pela Agenda 2030 (FAO, 2020).


Em contrapartida, em defesa de modelos sustentáveis de produção e que priorizam a Soberania Alimentar, pode-se destacar, no contexto brasileiro, a produção de alimentos pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que é considerado o maior produtor agroecológico brasileiro, possuindo, por exemplo, a maior produção de arroz orgânico da América Latina (RAUBER, 2020). Em 2020, o Movimento doou mais de 3 mil toneladas de alimentos para a população brasileira (MST, 2021).


Logo, a partir dos dados apresentados, é possível perceber a importância e a urgência da adoção de modelos produtivos sustentáveis e, principalmente, da promoção da SOBERANIA ALIMENTAR, para que seja possibilitado, a todos, de modo equânime, o acesso aos recursos produtivos, aos meios de produção e ao alimento, sem causar prejuízos à natureza.


Referências


FAO; IFAD; UNICEF; WPF; WHO. The State of Food Security and Nutrition in the World 2020. Transforming food systems for affordable healthy diets. Rome, FAO, 2020.


FAO; OPS; WFP; UNICEF. Panorama de la Seguridad Alimentaria y Nutricional: en América Latina y el Caribe. 2019. Santiago.


MST. MST completa 37 anos e mostra a força da agricultura familiar durante a pandemia. MST. 22 jan. 2021. Disponível em: MST completa 37 anos e mostra a força da agricultura familiar durante a pandemia - MST. Acesso em: 15 maio 2021.


RAUBER, Maiara. Maior produção de arroz orgânico da América Latina é do MST. MST. Disponível em: https://mst.org.br/2020/03/27/maior-producao-de-arroz-organico-da-america-latina-e-do-mst/. Acesso em 02 abr. 2020.


UNEP. Food waste index Report 2021. United Nations Environment Programme. Nairobi, 2021.

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