• Francieli Iung Izolani

NO BRASIL, ELES SEMPRE FORAM CHAMADOS “AGROTÓXICOS”?

Não. Somente com a Carta Magna de 1988, ocorreu a mudança do termo defensivo para agrotóxico, frente ao contexto político e histórico de ser esta Carta Constitucional socioambiental, ecológica, verde, dentre as nominações mais difundidas na doutrina.


O cenário político em que se vivia no fim da década de 1980 contribuiu bastante para essa guinada na nomenclatura. Para além dos grandes encontros internacionais sobre “meio ambiente” e sua necessidade de preservação, internamente, o Brasil também vivenciava um período de manifestações contra-hegemônicas de recursos discursivos para mascarar os reais efeitos do uso dos agrotóxicos na agricultura, como o Manifesto ecológico brasileiro, de autoria de José Lutzemberger.


Referido autor buscava alertar para o fato de que os agrotóxicos constituíam-se de um conjunto de toxicidades de consequências desconhecidas às quais agricultores estavam fazendo o manejo e consumidores adquirindo os alimentos assim produzidos, ambos sem maiores questionamentos, ao contrário do que era pregado, como algo bom e imprescindível ao aumento da produtividade para então erradicar a fome.


Outrossim, esse manifesto questionou o risco de extinção da humanidade frente à contínua utilização de agroquímica na agricultura, considerando a destruição da fauna, flora, o desequilíbrio ambiental já delatado por Carson (1994) duas décadas anteriores, e, destarte, evidenciou a necessidade de políticas públicas sanitárias (LUTZEMBERGER, 1980).


Aceitar a mudança na nomenclatura para termos mais amenos seria aceitar um retrocesso e ajudar a ocultar, negar ou desmerecer os riscos a que todos estamos expostos.


REFERÊNCIAS


CARSON, Rachel. Primavera silenciosa. Trad. Raul de Polillo. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1994.


LUTZEMBERGER, José A. Fim do futuro? Manifesto ecológico brasileiro. Porto Alegre: Movimento, 1980.

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