• Leura Dalla Riva

O QUE SÃO MONOCULTURAS E POR QUE SÃO PERIGOSAS?

Atualizado: Mai 14

Uma das grandes características da produção de alimentos moderna é sua base em monoculturas, isto é, a produção de apenas uma espécie de determinada semente, um único produto agrícola. Mas este é também um dos maiores problemas da agricultura atual.


Mas por que as monoculturas são perigosas?


1. As monoculturas atuais são profundamente baseadas no uso de sementes transgênicas e agrotóxicos, pois um demanda o uso do outro., Esses elementos afetam tanto a diversidade de plantas e animais dos ecossistemas como a própria saúde humana.

2. Ao afetar a biodiversidade, as monoculturas enfraquecem os ecossistemas e tornam as produções mais vulneráveis a fenômenos sociais e ambientais.


A venda de sementes transgênicas que está atrelada à venda de agrotóxicos, sendo ambos produzidos pelas mesmas empresas (Bayer, Syngenta, Basf, Dupont, Monsanto, Bunge etc.), conforme ressalta Gladstone Leonel Júnior (2019, p. 47). As sementes transgênicas são desenvolvidas por essas empresas para que só sobrevivem com o uso de agrotóxicos.


Essas sementes contaminam (são levadas pelas chuvas ou pelo vento, por exemplo) as plantações de sementes crioulas, gerando uma enorme dependência de todo o sistema de produção agrícola aos produtos produzidos pelas mesmas empresas que recebem lucros enormes com esse ciclo. Assim, os agricultores que tentam produzir sem o uso dessas sementes acabam tendo suas produções contaminadas por seus vizinhos.


As monoculturas foram implantadas historicamente sob argumento de que aumentariam a produção de alimento no mundo, superando problemas como a fome. Todavia, a maior parte da produção atual não é de alimentos:

A agricultura industrial hoje "produz apenas 30% dos alimentos destinados aos seres humanos, pois a maior parte da sua produção se destina a biocombustíveis e ração animal, sendo que cerca de 33 a 40% dos alimentos produzidos são perdidos na produção, transporte ou desperdiçados" (DALLA RIVA, 2020, p. 39).

O movimento histórico que implementou essa "modernização" no campo através do maior uso de máquinas, insumos, agrotóxicos e sementes transgênicas é chamada Revolução Verde e foi implementada sob argumento de que o desenvolvimento agrário seria a única solução para resolver o problema da fome (DALLA RIVA, 2020, p. 27). Hoje, todavia, já foi comprovado que o problema da fome no mundo não é uma questão de falta de produção, mas de má distribuição, desperdício e destinação da produção existente. Atualmente, "oito pessoas possuem mais riqueza do que metade da população mundial junta enquanto 800 milhões de pessoas passam fome" (DOWBOR, 2017, p. 26).


O uso de agrotóxicos também possui severos efeitos no meio ambiente e na saúde humana. Você pode saber mais acompanhando as postagens de nossa página destinada especificamente a este assunto.


E ao que mais as monoculturas estão associadas além dos transgênicos e agrotóxicos? É justamente por essa dependência das monoculturas elas são extremamente predatórias à diversidade de plantas e animais e também mais vulneráveis aos fenômenos naturais, criando também riscos aos próprios produtores e afetando a fertilidade dos solos a longo prazo:


"Os sistemas agrícolas mais diversificados possuem elevados níveis de tolerância a mudanças socioeconômicas e ambientais. [...] a perda da biodiversidade agrícola é causada sobretudo pela substituição das variedades locais e tradicionais e sua ampla variabilidade genética, pelas “variedades modernas de alto rendimento”. Ademais, é a biodiversidade e a capacidade de plantas e animais se adaptarem às necessidades humanas e às condições adversas do meio natural que assegura a sobrevivência de diversos grupos humanos em áreas sujeitas a estresses ambientais, pois é o cultivo de espécies diversas que protege os agricultores, em muitas circunstâncias, de uma perda total da lavoura, já que “[...] com as monoculturas, de estreitíssima base genética, ocorre o contrário: as pestes, doenças etc. atingem a única espécie cultivada e destroem completamente a lavoura” (SANTILI, 2009, p. 74)" (DALLA RIVA, 2020, p. 32).



SAIBA MAIS:


DALLA RIVA, Leura. De Marx ao MST: capitalismo financeirizado e forma jurídica como entraves à agroecologia. 112f. Dissertação (Mestrado em Direito) – Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ciências Sociais e Humanas, Programa de Pós-Graduação em Direito, 2020.


DALLA RIVA, Leura; GUERRA, Clarissa de Souza; IZOLANI, Francieli Iung; RUVIARO, Larissa Melez. Da agroecologia ao respeito à sociobiodiversidade: um olhar sobre a (im)possível sustentabilidade através de outra forma de produzir alimentos. In: Jerônimo Siqueira Tybusch; Francielle Benini Agne Tybusch; Liziany Müller Medeiros. Agroecologia e direitos da sociobiodiversidade. Santa Maria (RS, Brazil): Arco Editores, 2020 p. 52-72. Disponível em: https://www.arcoeditores.com/livros-1 or -

https://f7f3ee10-6cec-4bfa-a3ac-eb10305f7e07.filesusr.com/ugd/4502fa_ac9846e6ffb64c4993e91f9054cca74e.pdf.


DOWBOR, Ladislau. A era do capital improdutivo: Por que oito famílias têm mais riqueza do que a metade da população do mundo? São Paulo: Autonomia Literária, 2017


LEONEL JÚNIOR, Gladstone. Derecho a la agroecologia: uma Concepción transformadora para América Latina. Rio de Janeiro: Processo, 2019.


SHIVA, Vandana. Monoculturas da mente: perspectivas da biodiversidade e da biotecnologia. Trad. Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Gaia, 2003


26 visualizações

Posts recentes

Ver tudo